sábado, 2 de junho de 2018

Peregrinação e cristãos nominais 7



Em Peregrinação de Fernão Mendes Pinto o que eu reparo é que António de Faria e os portugueses que estão com ele, antes das matanças e pilhagens pedem a Deus que tudo corra bem e depois agradecem- Lhe por tudo ter corrido bem.
Para cúmulo, assassinos e ladrões tentam evangelizar os que lhes caem às mãos.
Arribando António de Faria a «[...] uma ilha de nome Calemplui, na qual estavam dezassete jazigos dos reis da China em uns presbitérios de ouro, [...]» (cap. 70), um tal Nuno Coelho roga a um velho ermitão «[...] que tomasse em tudo paciência porque assim o mandava Deus em sua santa lei, [...]».
O ermitão, face a irracionalidade tão sem medida, «[...] pondo a mão na testa a modo de espanto, e bulindo cinco ou seis vezes com a cabeça, sorrindo-se do que lhe tinha ouvido, lhe respondeu: - É certo que agora vejo o que nunca cuidei que visse nem ouvisse, maldade por natureza e virtude fingida, que é furtar e pregar. Grande deve ser a tua cegueira, pois confiado em boas palavras gastas a vida em tão más obras. Não sei se gracejará Deus contigo no dia da conta!» (cap. 77).
Quem nos apresenta estas coisas e tantas outras iguais é aquele que narra e denuncia, Fernão Mendes Pinto. Ora o que este narra e denuncia é o mal.
Será o mal o pano de fundo de toda a Peregrinação?
Cada vez me inclino mais para a ideia de que sim.




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