quarta-feira, 4 de abril de 2018

Santo Inácio de Loiola e utopia.

Foi nos anos 60 que comecei a ler os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola (1491-1556)... tinha eu 12 anos e estava no Seminário (Pia Sociedade de São Paulo).
É evidente que na altura não percebia o Santo, mas lia para a frente. Face aos livros, de uma maneira geral, sempre fui assim.
Agora estou a ler as Cartas de Santo Inácio de Loiola... uma selecção, claro, porque ele escreveu umas 7000 dirigidas a jesuítas espalhados por todo o mundo.
As cartas de Santo Inácio são testemunhos de grande alcance humano. Não espanta, vejo hoje, que este basco tivesse fundado uma ordem religiosa tão forte e moderna como o é a Companhia de Jesus.
Como o fez? Com uma palavra-chave que é esta: obediência.
Nada do que escrevi quer dizer que eu diga amém a todas as palavras de Santo Inácio de Loiola, talvez a maior figura da Contra-Reforma.
Por exemplo, numa das cartas a Teresa Rajadell, pode ler-se: «Quanto aos males particulares [...], não deixará de havê-los no nosso estado de presente miséria, até se consumir inteiramente toda a nossa malícia na fornalha do eterno amor de Deus, Criador e Senhor nosso. Então serão as nossas almas penetradas e completamente possuídas por Ele e as vontades conformadas, ou melhor, transformadas naquela que é a essencial rectidão e perfeita bondade».
Estávamos no séc. XVI que é o século das utopias.
O pontapé de arranque teria sido dado por Tomás Moro (1478-1535). O próprio Camões em Os Lusíadas e Cervantes em D. Quixote não ficariam incólumes.
Incólume não ficou Santo Inácio de Loiola porque penso que o homem nunca extirpará a malícia de si. Quando muito, porque é criatura, logo imperfeito, não irá além de um bom controlo do mal.
Por mais que eu escandalize algumas pessoas, a verdade é que nas utopias do séc. XVI já está a génese daquilo que hoje, comummente, se designa por esquerda. Esta rejeita o que em teologia se diz pecado original, quer também dizer, criminalidade hereditária... coisa entranhada no que há de mais profundo na natureza humana. Eis por que na ilha de Tomás Moro tudo corre sobre rodas.
Estes homens, no plano subjectivo, não queriam o mal da humanidade, mas objectivamente deram considerável contributo ao homem e ao mundo que temos hoje. Veja-se que na América Latina, os jesuítas defendem a Teologia da Libertação (marxização do Evangelho) e põem-se ao lado de tiranos... quando toda a Bíblia está contra o Baal, símbolo do poder político absoluto.
Ler em baixo "Testamento (Segundo Maria)".

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