segunda-feira, 19 de março de 2018

Uma viagem aos Açores

Acabei de chegar dos Açores, topónimo que significa azul.
Parti no dia 13 do mês em curso. Fui erguido aos céus num avião da SATA (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) cujo nome era Ciprião de Figueiredo, alcochetano do séc. XVI. A começar assim, logo pensei comigo que tudo me iria correr bem.
Duas horas depois de um belo voo, chegámos ao aeroporto João Paulo II, partindo daqui para o Hotel Lince em Ponta Delgada.
Neste primeiro dia, que ia já a meio, limitamo-nos a fazer um reconhecimento à capital da ilha de São Miguel, cuja baixa é a mais autêntica arquitectura portuguesa. Mas à medida que nos dirigimos para as periferias aparecem os tais mamarrachos iguais aos de toda a parte no mundo... coisa aflitiva!
Chegada a hora do jantar, dirigi-me a um taxista a fim de que me indicasse um restaurante de comida regional... pois eu não fui aos Açores para comer no arquipélago o que como no Continente.
O homem disse-me, apontando: - Olhe, vá ali à Rua do Aljube e entre na Tasca!
Lá fomos. O restaurante estava cheio. Só via alemães. Arranjaram-nos uma mesa a um cantinho. Sentámo-nos. Segundos depois, atiraram para a frente de cada um de nós um jornal dobrado ao meio. Fiquei estupefacto a olhar. Minha mulher disse: - É a ementa! Só então atentei no título: O Jornal da Tasca.
Como o empregado visse que estávamos atrapalhados, sugeriu uma tábua de queijo e enchidos pequena (entradas), uma dose de peixe e outra de carne, a saber, lombo de atum grelhado com sementes de sésamo, legumes, batata doce, inhame... e bife da vazia de novilho. Para beber, minha mulher e filho pediram sumo natural de laranja e para mim veio uma garrafa de vinho branco fresquinho da ilha do Pico.
Não obstante o restaurante abarrotasse de pessoas, a verdade é que não esperámos muito pelas coisas.
A tábua veio com duas ou três qualidades de queijo diferentes, rodelas de chouriços vários, presunto e outras coisas que eram gostosas, mas que não sei designar bem.
Eu deliciava-me comendo e bebericando e em pulgas pelo atum grelhado... pois não fazia a mínima ideia como fosse. Até a estes meus quase setenta anos, o atum foi sempre de conserva.
E não é, meus amigos, que eu corria mesmo o risco de morrer sem saber o que é atum?
O atum que puseram à nossa frente foi das poucas coisas boas que eu comi em toda a minha vida. Não me digam que eu deito abaixo este Farias Vineyards que puseram à minha frente!
A carne estava saborosíssima e parecia que estávamos a mastigar pão.
Eu já estava atestado, mas não poderíamos sair dali sem experimentarmos o pudim de inhame. Era, de facto muito fresquinho e divinal.
Finalmente o café, acrescido de uma aguardente do Pico para mim. Tudo por cinquenta euros.
De regresso ao hotel, passámos pelo taxista que nos tinha dado a informação da Tasca. Agradecemos-lhe e perguntámos-lhe quanto nos custaria uma ida às Furnas. Disse que trinta euros. Combinámos que no dia seguinte o sr. Zé (assim se apresentou) estaria à porta do Lince pelas dez horas. O homem não falhou e lá partimos para a terra do cozido feito no subsolo daquelas terras vulcânicas.
Ora é aqui que esta história começa verdadeiramente. O meu taxista falava o português com uma extrema propriedade e era um mestre da cultura açoriana em geral e da micaelense em particular.
O sr. Zé chamou a minha atenção para as culturas de inhame, batata, beterraba, banana (muita da que comemos aqui como sendo da Madeira é afinal açoriana), ananás, tabaco, milho, vinha, etc.
Depois, há a suinicultura e as vacas. Estas, em São Miguel, são mais que os seres humanos; há a pesca dos sargos e a saudade da baleia.
Quando chegámos às Furnas, trombas de fumo branco (enxofre) saídas de caldeiras de água efervescente e ruidosa uniam a terra ao céu; outras vezes, uma rajada de vento espalhava aquela fumaça pelo chão que parecia alvo manto a cobri-lo.
A seguir à contemplação deste tremendo espectáculo, fomos tomar banho de água quentinha ao Centro Termal das Furnas (Poça da Dona Beija). Aguardava-nos o almoço.
Fomos almoçar ao Tony's que pôs à nossa frente uma enorme travessa de cozido. Eu fiquei perplexo a olhar. Antes de provar, vi logo que ali estava qualquer coisa de muito bom. A minha mulher e filho serviram-se primeiro. Eu olhava para a comida que brilhava sob os meus olhos. Depois, quase ritualmente, pus um bocadinho de cada coisa no meu prato. Estava muito acima de tudo aquilo que eu tinha imaginado. Saber a enxofre? Nada disso que isso são aldrabices. O cozido das Furnas de São Miguel é um prato gastronómico que se pode colocar ao lado dos mais famosos à face de toda a terra: Pot au feu, Moussaka, bobotie, etc.
Bebi vinho branco do Pico, minha mulher e filho sumos. Não conseguimos comer tudo. Vieram sobremesas, cafés e um digestivo para mim. Trinta e nove euros e quarenta cêntimos.
Após comprarmos algumas coisas, entre as quais bolo lêvedo, telefonámos ao nosso taxista que nos veio buscar para nos devolver ao hotel.
Deixámos passar um dia para conhecer melhor Ponta Delgada. Fomos ao buliçoso mercado desta cidade e ao Parque Atlântico (centro comercial).
Outra vez o sr. Zé em acção, sempre com informações preciosíssimas e pertinentes, a levar-nos a Sete Cidades, às lagoas azul, verde e à de Santiago. Aqui o grande espectáculo é o da natureza, o da obra inimitável do Criador.
Mas nem tudo é oiro sobre azul nos Açores. Um dos títulos noticiosos do jornal Açoriano Oriental de 17 de Março de 2018 é o seguinte: "Aumenta consumo de droga e álcool na zona das Capelas". O roubo é um flagelo. O desemprego é acentuado e andam pessoas de bem na mendicidade. Os açorianos continuam a partir para o Canadá, Estados Unidos da América, Brasil, Bermudas, etc.
Chegou o dia de regresso ao Continente. O saldo da minha viagem foi muito positivo. Já tinha visitado as Baleares, as Canárias, a Madeira. Agora foi a vez dos Açores, a Deus graças, pois a infinita misericórdia do Senhor sobre mim tem sido grande.

Sem comentários:

Enviar um comentário