sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Faleceu ontem o forcado António Manuel Cardoso (Nené)


Nené (1954-2018)

Só agora acabo de tomar conhecimento da trágica morte de António Manuel Cardoso, entre nós mais conhecido por Nené, ocorrida ontem à noite (01/02/2018).
Estou consternado pelo desaparecimento desta grande figura alcochetana e por tardiamente o saber, fruto de quase não ver televisão nem ler jornais nacionais.
Quando me sentir mais sereno, voltarei a falar deste amigo de juventude.
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Depois de almoço, saí de casa para tomar café e ver se colhia mais informações sobre o infortúnio de António Manuel Cardoso. Por enquanto, as informações são escassas: o desastre de viação deu-se ao pé da Academia do Sporting. O António sobreviveu pouquíssimo tempo depois do embate que envolveu três automóveis. O que duas pessoas me disseram do dia e hora do funeral é um pouco contraditório. Vamos aguardar.
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Fui ao Moisém. Estava uma ventania gelada. Passei pela frente da casa do António Manuel Cardoso. Portas e janelas todas fechadas. Foi nesse miradouro frente ao Tejo que conheci o António há 50 anos. Ele teria uns 15 e já mirava por cima das nossas cabeças.
António não mandava recado por ninguém. Dizia na cara fosse de quem fosse o que pensava sem papas na língua.
Uma vez, na casinha que João Ferreira Rosa tinha nas Barrocas, fui convidado a sentar-me a uma mesa onde já estavam várias pessoas, entre elas o António. Havia um jarro de vinho tinto ao meio e cada um ia falando e bebericando. Ali, Nené, como todos o tratavam, era um homem completamente diferente, deixando transparecer o seu lado humaníssimo.
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Venho de falar com o cabo dos Forcados Amadores de Alcochete, Nuno Santana, que encontrei na sede do grupo.
Disse-me o Nuno que o corpo de António Manuel Cardoso vem hoje para Alcochete e será velado no Salão Nobre da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898. Amanhã, pelas 13H00, irá em cortejo até à Praça de Toiros e o funeral será às 15H30.
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Eram 22H00 quando saí de casa a caminho da Sociedade para estar um pouco com o António Manuel Cardoso. Estranhei porque ainda ia no Largo do Poço e apercebo-me que estavam largas dezenas de pessoas em frente à porta desta colectividade que dá para a Rua Direita. Ando um pouco mais e passo por Mário Boieiro que me informa sobre o atraso nos trabalhos de autópsia ao corpo do António, grande forcado, cabo de forcados, empresário tauromáquico e apoderado. Vamos ver se amanhã, lá para o começo da tarde, temos o corpo do nosso amigo em Alcochete.
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Acabo de chegar da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 onde está em Câmara ardente o corpo de António Manuel Cardoso. Enquanto lá estive, a todo o momento chegavam coroas e palmas de flores. Entre as muitas pessoas que prestavam a derradeira homenagem ao António, eu vi «...el gran José Samuel Lupi...» (José Antonio del Moral: 2007).
O funeral do nosso Nené será amanhã, às 14H00, começando com um cortejo fúnebre até à Praça de Toiros.
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Perto das duas horas da tarde, minha mulher e eu saímos de casa para nos incorporarmos no funeral de António Manuel Cardoso.
As pessoas eram muitas. Fazia vento e frio. Arravessamo-nos na Rua do Grilo à espera que a urna saísse do Salão Nobre da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898, o que de facto aconteceu na hora anunciada, entrando no carro da Agência Funerária e dirigindo-se para a sede do Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, Largo António dos Santos Jorge. Aqui um músico da Banda da Sociedade, José Manuel Raminhos, o melhor trompetista das bandas filarmónicas de Portugal, lançou por cima de toda a vila de Alcochete o toque de silêncio.
Depois, a urna vem aos ombros de forcados antigos e actuais dos Amadores de Alcochete que se iam revezando (José Barrinha Cruz, António José Pinto, José Luís Batista, Aníbal Pinto, Francisco Marques, João Pedro Bolota, Vasco Pinto, Nuno Santana, João Ângelo, Diogo Toorn...), percorre o Largo do Poço e vira para a Rua Padre Cruz a caminho do Moisém. Só parou em frente à casa de António Manuel Cardoso onde houve alguns minutos de recolhimento.
Entretanto, eu tinha deparado com o meu amigo António José de Oliveira Godinho com quem ia trocando impressões. Éramos da opinião de que ali estavam várias centenas de pessoas. António José reconhecia os cavaleiros João Ribeiro Teles, Manuel Ribeiro Teles, Paulo Caetano, Rui Salvador, Rui Fernandes, Luís Rouxinol; os ganadeiros João Samuel Lupi e Joaquim Alves; os forcados do Montijo Rogério Amaro e Simão Comenda; o Dr. Vasco Lucas e o cirurgião Manuel Passarinho, padrinho dos Forcados Amadores de Alcochete e um dos melhores forcados do grupo, não por pegar mas por recuperar os pegadores de toiros.
Por esta altura já o cortejo sobe o Rato direitinho à Praça de Toiros, a menina dos olhos de Nené há trinta e cinco anos.
Durante a volta à arena, António Manuel Cardoso foi aplaudido de pé com uma prolongada salva de palmas por todos os participantes, dispersos pelas bancadas, ao som do seu mais querido pasodoble, o do Grupo de Forcados Amadores de Alcochete.
Finda esta etapa do percurso, saímos todos da Praça de Toiros, detendo-se a urna frente à estátua de Hélder Antoño por alguns minutos de grande silêncio... como se o António dissesse ao Hélder: "vou ter contigo!".
Por último, a descida do Rato, o virar à Rua Beneficiado Oliveira, a missa de corpo presente celebrada pelo Rev.º Padre Ramiro na capela do cemitério, a campa de família n.º 734, as lágrimas... a certeza de que o Grupo de Forcados Amadores de Alcochete triunfará sobre todas as vicissitudes.
  


1 comentário:

  1. Um antigo forcado de Alcochete, empresário e apoderado. Um taurino que era uma referência na nossa Festa e que faleceu de uma forma trágica.
    Paz à sua alma.

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